"Quando a última árvore tiver caído, quando o último rio tiver secado, quando o último peixe for pescado, todos vão entender que dinheiro não se come". ( VALDOMIRO MAICÁ)

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Potencial de conflito da água cresce na medida da escassez e demanda


Em tempos de mudança climática global, um exame do crescimento demográfico e do aumento no consumo de água gera inquietação quanto ao futuro. Sobretudo porque muitos fluxos hídricos atravessam fronteiras nacionais.

O relatório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) para 2003 apresenta números exatos: em todo o mundo, 263 fluxos de água atravessam os territórios de 145 Estados. Eles correspondem a 60% do volume total de água doce disponível no planeta e abastecem 40% da população mundial.Dezenove rios atravessam mais de cinco nações fronteiriças, e projetos de represas são a principal causa de conflitos entre os países que se encontram no curso superior ou inferior dos rios. Com seu projeto Atatürk, de represar o Rio Eufrates, por exemplo, a Turquiapode literalmente fechar as torneiras da Síria e do Iraque.


DESEQUILÍBRIO NA ÁFRIA


Num estudo realizado em fevereiro de 2011, oInstituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP), sediado em Berlim, classifica como de alto risco a situação nos rios Amurdaya e Syrdaya, da Ásia Central, e no Nilo. Um dos autores dessa análise é Tobias von Lossow. Em entrevista à Deutsche Welle, o politólogo apontou para as décadas de conflitos entre o Egitoe o Sudão, de um lado, e a Etiópia, do outro.

"Também por razões econômicas, até o momento a Etiópia não podia desenvolver plenamente seu potencial de utilização da água, seja na irrigação agrária, seja na produção de energia. Isso, porém, mudou basicamente com as novas possibilidades de financiamento e o apoio da China nos últimos anos."

Nilo, rio mais extenso da África, percorre quase 7 mil quilômetros do centro e leste do continente até o Mar Mediterrâneo e atravessa dez países -- marcados por uma inegável assimetria na utilização de suas águas.

DIVISÃO DESIGUAL

Os Estados localizados no curso superior do rio possuem o maior volume da água diponível, mas é no curso inferior que ela é mais consumida, sobretudo pelo país que menos dispõe do "ouro azul", oEgito. Tal situação está fixada num acordo de 1929, negociado ainda pela Inglaterra, potência colonial na época. Traduzido em termos atuais: o Egito pode usar 66% da água do Rio Nilo, e o Sudão, 18%.

Antes, quando as nações no curso superior do Nilo pouco utilizavam sua riqueza hidrográfica, o potencial de conflito era reduzido. Hoje em dia, contudo, a Etiópia, em especial, mas também RuandaQuênia eUganda querem utilizar o precioso recurso para o próprio desenvolvimento, e pleiteiam novas regras.

O anúncio do governo etíope de que passaria a usar mais a água doNilo na própria agricultura e na produção de energia já provocou ameaças indiretas de guerra por parte dos egípcios. Consta, por exemplo, que o ex-presidente Anwar Sadat teria declarado: "O único motivo que poderia levar o Egito mais uma vez à guerra seria a água". Até agora, instâncias multilaterais, como a Iniciativa da Bacia do Nilo, tiveram pouco sucesso em harmonizar os diferentes interesses dos países rio acima e rio abaixo.

CHINA X ÍNDIA

Na Ásia, por outro lado, o choque é entre duas nações emergentes: China e índia. A China tem uma sede tremenda e abriga as nascentes de alguns dos maiores e mais importantes rios da região, como oMekong e o Brahmaputra. Pequim planeja gigantescos projetos hídricos, a fim de levar a água do norte até o seco sul. Nesse contexto, a Índia suspeita que a China também esteja desviando água do Himalaia.

Jagarnath Panda é perito em assuntos chineses do Institute for Defense Studies and Analyses, em Nova Deli. Como revelou àDeutsche Welle, ele acredita que a água possa se tornar um problema central entre a Índia e a China. "Os chineses negam em alto e bom som a tese de que planejem desviar água. Mas nós sabemos que eles se ocupam de projetos com esse fim."

Segundo Panda, nos últimos anos, acima de tudo uma coisa mudou: "Em ambos os países, a opinião pública começou a falar do temaágua. As pessoas já compreenderam: nem a questão fronteiriça, nem o papel da China ou da Índia em âmbito regional ou global, mas sim a água será o maior problema entre os dois países nos próximos anos".

GUERRA POUCO PRÁTICA

De fato, a água é um dos elementos de diversos conflitos. Entretanto, Von Lossow considera distante a possibilidade de haver uma guerra pelos direitos da água, até porque isso seria bastante difícil, do ponto de vista da estratégia militar, a começar por considerações absolutamente práticas.

"Quem bombardeia uma represa fica de frente para a inundação rio abaixo", observa o perito do SWP. Além disso, a água é pesada e tem um valor econômico relativamente baixo, de modo que não se pode transportá-la como diamantes ou petróleo bruto.
Devido a limitações topográficas naturais, para se controlar uma fonte de água seria necessário ocupar todo o território de uma bacia hidrográfica, o que, a longo prazo, assegura o politólogo Tobias von Lossow, seria simplesmente caro demais.
FONTE :  Deutsche Welle

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